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♡ Primeira Colheita ♡
As Cicatrizes que Me Ensinaram
não são defeitos.
São fronteiras desenhadas
aos poucos,
ensinando a pele
onde não deve mais deixar entrar
mãos que confundem carícia
com posse.
Hoje vejo:
cada linha no mapa do meu corpo
é uma sentinela
que aprendeu a dizer “não”
em silêncio.
O Silêncio que Me Salvou
que algumas palavras
merecem morrer na garganta.
Aprendi a guardar o que é sagrado
nos espaços entre os dentes
onde seu sarcasmo
não alcançava.
E descobri, depois,
que meu silêncio não era fraqueza:
era o portão trancado
de um jardim
que você nunca mereceu conhecer.
O Espelho que Parou de Mentir
que quase esqueci
qual era meu rosto verdadeiro.
Você colecionava espelhos tortos
e me obrigava a me ver neles:
sempre pequena demais,
sempre errada.
Até o dia em que encontrei
um pedaço de vidro intacto
no fundo de mim
e reconheci, pela primeira vez,
a mulher que você tanto temia
que eu me tornasse.
A Saída que Parecia Porta Errada
o que era apenas medo de ficar sozinha.
Chamei de paixão
o que era adrenalina de sobrevivência.
E quando saí,
parecia porta errada:
tão leve a maçaneta,
tão silencioso o fechar.
Só entendi depois
que relacionamentos verdadeiros
não têm som de guerra
nem gosto de lágrima engolida.
Os Ossos que Relembram
o peso das suas palavras.
Às vezes, em noites quietas,
sinto o eco do que você disse
ressoando nas costelas.
Mas aprendi:
o corpo guarda memórias
não para nos torturar,
mas para nos alertar.
Agora, quando sinto o calafrio,
não é trauma:
é o meu próprio esqueleto
sussurrando:
“lembra do que sobrevivemos,
lembra do que não voltaremos”.
intervalo para o coração
♡ Segunda Colheita ♡
O Fôlego que Me Sobrou
nos intervalos entre suas críticas.
Guardava ar nos pulmões
como quem esconde provisões
para uma guerra invisível.
Hoje respiro inteira:
cada inspiração não é mais estratégia,
é apenas vida
reclamando seu espaço
no meu próprio peito.
O Calendário das Minúcias
os dias em que você era gentil:
eram tão raros
que pareciam feriados.
Anotava migalhas de afeto
como quem cataloga tesouros
em meio a escombros.
Quando parei de contar,
descobri que o tempo
não precisa ser medido
por migalhas recebidas.
A Gramática do Adeus
onde “te amo” significava “me obedeça”
e “sinto sua falta” queria dizer
“estou entediado”.
Levei anos para desaprender
essa sintaxe doente.
Agora estudo novas palavras:
“respeito” tem uma sonoridade doce,
“liberdade” é um verbo conjugado
só no presente.
A Arquitetura do Vazio
a casa que construímos sobre areia.
Cada quarto era uma memória
de discussões abafadas,
cada parede guardava o eco
de promessas quebradas.
No terreno livre, plantei um jardim.
Agora, onde havia cimento rachado,
crescem flores que não precisam
de sua permissão para desabrochar.
O Almanaque do Corpo
que minha mente não queria ler:
As costas tensionadas registravam
o peso das suas expectativas.
O estômago em nós contava
as verdades que engoli.
Agora escuto esses registros
não como sintomas,
mas como cartas de amor
de um eu mais antigo
tentando me proteger.
Bússola Desimantada
minha direção era você:
seu humor ditava o clima,
sua aprovação era o norte.
Quando me afastei,
a bússola girou loucamente,
perdida sem seu polo magnético.
Aos poucos entendi:
não estava desorientada.
Estava apenas descobrindo
que o verdadeiro norte
morava dentro de mim
o tempo todo.
“Seus poemas não precisam ser sobre a dor,
mas sobre o que você construiu depois dela.”
— para cada mulher que renasce em suas próprias palavras