Haicais do Desejo
Japão & sensualidade · fusão silenciosa
I
Teu nome
escrito com pincel molhado
na minha nuca.
A tinta seca.
A marca não.
escrito com pincel molhado
na minha nuca.
A tinta seca.
A marca não.
II
Cerejeira cedo.
Tua mão no meu silêncio
abre devagar.
Não sou flor.
Sou fruta que só tu mordes.
Tua mão no meu silêncio
abre devagar.
Não sou flor.
Sou fruta que só tu mordes.
III
Chá na xícara fria.
Teu gosto demora
mais que o inverno.
Teu gosto demora
mais que o inverno.
IV
Lá fora, a lua.
Aqui dentro, tua coxa
pesando na minha.
Não tem poema chinês
que traduza esse peso.
Aqui dentro, tua coxa
pesando na minha.
Não tem poema chinês
que traduza esse peso.
V
Acordei com teu cheiro
no travesseiro.
Não tava lá.
Mentira do corpo.
Mentira boa.
no travesseiro.
Não tava lá.
Mentira do corpo.
Mentira boa.
VI
O rio corre
sem perguntar pro vento.
Meu desejo corre
sem pedir licença pra tua roupa.
sem perguntar pro vento.
Meu desejo corre
sem pedir licença pra tua roupa.
VII
Murchou a flor do vaso.
Teu nome no meu peito
continua fresco.
Não devia.
Mas continua.
Teu nome no meu peito
continua fresco.
Não devia.
Mas continua.
VIII
Tua mão na minha cintura
é haicai.
Poucas sílabas.
Mundo inteiro.
é haicai.
Poucas sílabas.
Mundo inteiro.
IX
Outono.
Folha seca no chão.
Tua boca seca na minha.
Nenhuma das duas reclama.
Folha seca no chão.
Tua boca seca na minha.
Nenhuma das duas reclama.
X
O monge varre o templo.
Eu varro teu nome
da minha boca.
Não sai.
Grudou que nem musgo.
Eu varro teu nome
da minha boca.
Não sai.
Grudou que nem musgo.
XI
Sakê derrama
na mesa de madeira.
Teu beijo derrama
onde a mesa não alcança.
Ambos deixam mancha.
na mesa de madeira.
Teu beijo derrama
onde a mesa não alcança.
Ambos deixam mancha.
XII
Teu corpo é pergaminho.
Meu dedo, pincel.
Escrevo teu nome
no teu corpo.
Você lê de olho fechado.
Meu dedo, pincel.
Escrevo teu nome
no teu corpo.
Você lê de olho fechado.
XIII
Bambu range.
Tua cama range.
O silêncio depois
é a mesma prece.
Tua cama range.
O silêncio depois
é a mesma prece.
XIV
Pétala no chão
não volta pro galho.
Teu gosto na minha boca
também não.
Melhor assim.
não volta pro galho.
Teu gosto na minha boca
também não.
Melhor assim.
XV
Crisântemo
não tem pressa de florar.
Teu corpo tem.
E eu agradeço.
não tem pressa de florar.
Teu corpo tem.
E eu agradeço.
XVI
Tinta nanquim
não sai do papel.
Teu nome na minha pele
também não.
Desisto de lavar.
não sai do papel.
Teu nome na minha pele
também não.
Desisto de lavar.
XVII
Vento frio.
Tua mão quente
na minha nuca.
O inverno não entrou.
Tua mão quente
na minha nuca.
O inverno não entrou.
XVIII
Cachoeira.
Água que desce sem parar.
Tua língua.
Mesma coisa.
Mesma vertigem.
Água que desce sem parar.
Tua língua.
Mesma coisa.
Mesma vertigem.
XIX
O jardineiro poda a roseira.
Tu podas meu silêncio.
Sangra igual.
Floresce igual.
Tu podas meu silêncio.
Sangra igual.
Floresce igual.
XX
Lua cheia.
Tua cara no meu peito.
As duas brilham
sem pedir permissão.
Tua cara no meu peito.
As duas brilham
sem pedir permissão.
XXI
O velho templo
tem cheiro de madeira.
Teu pescoço
tem cheiro de amanhecer.
Os dois me param.
tem cheiro de madeira.
Teu pescoço
tem cheiro de amanhecer.
Os dois me param.
XXII
Nevoeiro.
Não vejo o mar.
Sinto tua mão.
É a mesma coisa.
Não vejo o mar.
Sinto tua mão.
É a mesma coisa.
XXIII
O samurai guarda a espada.
Eu guardo teu nome
na língua.
Nunca usei.
Pesado que nem ferro.
Eu guardo teu nome
na língua.
Nunca usei.
Pesado que nem ferro.
XXIV
Café amargo.
Teu beijo depois.
Agora a xícara
tem gosto de erro doce.
Teu beijo depois.
Agora a xícara
tem gosto de erro doce.
XXV
O pintor olha a tela branca.
Eu olho teu corpo nu.
Os dois têm medo
do primeiro traço.
Eu olho teu corpo nu.
Os dois têm medo
do primeiro traço.
XXVI
Tempura ferve.
Teu corpo ferve mais.
Óleo queima.
Tu queimas mais.
E eu gosto.
Teu corpo ferve mais.
Óleo queima.
Tu queimas mais.
E eu gosto.
XXVII
O sino do templo
tocou uma vez só.
Teu nome na minha cama
toca sem parar.
Surdo. Fundo. Certo.
tocou uma vez só.
Teu nome na minha cama
toca sem parar.
Surdo. Fundo. Certo.
XXVIII
Folha de chá
no fundo da xícara.
Teu gosto na minha boca.
Nenhum dos dois
quer sair.
no fundo da xícara.
Teu gosto na minha boca.
Nenhum dos dois
quer sair.
XXIX
O corvo pousa
no galho seco.
Tu pousas no meu peito.
Nenhum dos dois
pediu licença.
no galho seco.
Tu pousas no meu peito.
Nenhum dos dois
pediu licença.
XXX
Primavera chega.
Cerejeira não sabe.
Teu corpo chega.
O meu sabe.
Sempre soube.
Cerejeira não sabe.
Teu corpo chega.
O meu sabe.
Sempre soube.